Colunista

Álvaro Werner

Ponto de Encontro

Fim de semana chegando

Publicado em: 19 de abril de 2024 às 10:43 Atualizado em: 30 de abril de 2024 às 10:44
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FIM de semana chegando. Domingo, 21, o feriado nacional consagrado a Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira, um memorável movimento pró-independência do Brasil Colônia, cujas riquezas vinham sendo exploradas pela Coroa Portuguesa. Em 1789 decretou-se o confisco de um quinto de todo ouro produzido na região de Vila Rica, atual Ouro Preto, na Província de Minas Gerais. O líder conspiratório era Joaquim José da Silva Xavier, um alferes, posto militar de graduação média no exército. A insatisfação aumentava porque a taxação não ficaria apenas no ouro, mas também nas pedras preciosas e madeiras nobres. A conjuração não vingou, eis que delatada por um dos seus participantes. Tiradentes sofreu a mais cruel e severa punição: morte por enforcamento e exposição de seu corpo esquartejado em praças públicas. Um século depois, com a Proclamação da República, foi reconhecido como Herói da Pátria e Mártir da Independência.

HISTÓRIA à parte, pesquisadores enveredaram por entre transcrições em livros de atas de igrejas, de colégios, de repartições públicas, cartas pessoais, folhetos, jornais, manuscritos diversos e desmistificaram algumas curiosidades. Outro dia comentamos que a expressão “quinto dos infernos” e a interjeição mineira “uai” (tão popular como o nosso tchê…) teriam se originado naqueles tempos e são ainda de uso corrente nos dias de hoje. Até a corrupção é secular e já singrava pelas caravelas portuguesas. Os capitães, como eram conhecidos os navegadores, compravam ouro e pedras preciosas no mercado paralelo. Para burlar o fisco, escondiam o contrabando em imagens de santos esculpidos em madeira. O interior era oco e cuidadosamente lacrado de tal forma que passava despercebido pelas autoridades portuárias. Surgiria daí a expressão “santo do pau oco” que hoje serve para definir uma pessoa dissimulada, de caráter duvidoso.
DE volta aos meus tempos de acadêmico do Direito, na metade dos anos 70, curso que integrava a FISC – Faculdades Integradas de Santa Cruz. Ocupando salas improvisadas no pavilhão central da Oktoberfest, tínhamos aulas de Deontologia Jurídica, ministradas pelo Professor Pe. Arno Antônio Klein. Entre deontologias e Direito Canônico, nos proseados extra classe, abordou-se a expressão do “santo do pau oco”. Segundo o nosso mestre, poderia ter se originado entre as aldeias dos Sete Povos das Missões. Os jesuítas tinham muita dificuldade de entendimento com os nativos e mais ainda para que aceitassem os ensinamentos cristãos. Alguns catequizadores que dominavam a técnica da ventriloquia, que é a arte de falar sem movimentar os lábios, induziam os guaranis a dirigir suas orações ao “santo do pau oco”, imagens sacras em madeira, ao estilo barroco com a boca ligeiramente vazada. Os jesuítas ventríloquos “respondiam” as preces. Versões, enfim. Si non é vero, é ben trovato.

COMO visto pelos registros históricos, saquear o Brasil Colônia para satisfazer as mordomias da aristocracia que frequentava os palácios lusitanos parecia ser fácil e de rotina. Ao menor sinal de alerta do tesoureiro real era só mandar vir mais “um quinto dos infernos” de ouro e pedrarias que os brasileiros extraiam com suor e sangue. Ficavam satisfeitos com 20%. Atualmente chegamos a 40% do PIB para prover a nobreza que orbita os palácios e mansões da Versailles tupiniquim. E não chega, pois os legisladores, que sempre dizem que estão ao lado do povo, aprovaram o SPVAT e tem o novo “arca-bolso malvaddad” chegando. O Piratini confirma a nova proposta de aumento do ICMS de 17% para 19% após ter sido recusada pela Assembleia Legislativa o projeto que previa alíquota de 19,5%. Governos não têm produção de dinheiro. A grana sai do bolso do povo, simples assim, secularmente. Pela Lei de Murphy, o que está ruim hoje sempre tem chance de ficar pior. Acautelem-se.