Pensar em futebol enquanto o Rio Grande do Sul encontra-se em estado de calamidade parece causar até certo constrangimento. Há quem defenda a continuidade e há quem seja contra. Cada qual com seus argumentos.
O futebol na tragédia.
O futebol parou no Rio Grande do Sul. E esta frase, dita assim, em meio àquela que possivelmente seja a maior catástrofe climática da história gaúcha, causa algum constrangimento. Futebol, a esta altura dos acontecimentos? É do técnico italiano Arrigo Sacchi a frase: “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”.
Daí porque mesmo em meio a um momento de comoção como raras vezes se viu na história, a discussão sobre a continuidade ou não do futebol em todo o Brasil, numa espécie de solidariedade com os times e o povo daqui, acaba ganhando espaço e dividindo opiniões. O fato é que no Rio Grande o futebol, profissional e amador, está parado.
Porque o estado, como um todo, está num transe de sofrimento, insegurança e solidariedade coletiva. Porque a vida luta para ser preservada. Porque não há estádios, como não há casas, não há estradas, não há aeroporto, não há logística e transporte, não há suprimentos, falta água, falta energia e as comunicações são precárias. Em alguns lugares, não há mais cidades. Há mortos. Não há ambiente.
Portanto, aqui o futebol parou e os três clubes gaúchos na Série A têm suas partidas adiadas indefinidamente no Campeonato Brasileiro, os jogos de Grêmio e Inter na Libertadores e na Sulamericana foram remarcados e, da mesma forma, os jogos envolvendo clubes gaúchos na Séries C e D estão suspensos.
Por que parar?
Os que defendem a continuidade das competições para quem está em condições e até para os clubes gaúchos, que poderiam se realocar em outras praças, já oferecidas, têm argumentos que não podem ser desprezados.
O futebol profissional no Brasil emprega hoje algo em torno de 150 mil pessoas. Este mercado depende fundamentalmente das competições, da mídia, de sua exposição, dos recursos de patrocinadores e apoiadores. Sem competição, como sustentar esta cadeia produtiva? Não seria trazer para a tragédia pessoas que, fora dela, poderiam auxiliar, trabalhando e consumindo, porque consumir é importante para todos se reerguerem? E, mais, parar o futebol e o esporte no Brasil não seria aumentar e espalhar o impacto emocional?
Como não parar? Quem é contra a continuidade do futebol acima do Mampituba, ressalta o prejuízo técnico que os clubes daqui, com todos os profissionais dispensados de suas atividades e sem poderem se preparar, terão logo à frente. E, muito mais do que isso, na inexistência de qualquer clima ou ambiente para se praticar e festejar futebol, em meio a uma tragédia sem precedentes. Em sinal de respeito, compaixão e espírito solidário, seria necessário suspender as competições.
Prejuízo técnico.
O Estádio Beira-Rio e a Arena do Grêmio, assim como os CTs Parque Gigante e Luis Carvalho estão literalmente submersos, tomados por uma água barrenta que afeta seus gramados e suas estruturas. Não se sabe quando ou como serão recuperados. Os profissionais estão dispensados dos treinamentos e do trabalho diário. As partidas estão suspensas até, pelo menos, o dia 27 deste mês.
E aí, desportivamente pensando e falando, há duas preocupações: o calendário alucinante que terão de enfrentar e o prejuízo técnico da parada, seguida de uma retomada sem o devido recondicionamento. Os clubes vão perder tecnicamente, desportivamente. Mas, pensando melhor, algum gaúcho não perdeu algo nestes tempos medonhos?
Exemplos de esperança.
Tão logo o Brasil se deu conta da tragédia que assola o Rio Grande, demonstrações de solidariedade, engajamento e afeto vieram de diversos lados. O Atlhetic, clube mineiro de menor expressão, foi um dos primeiros. Seu irmão mineiro, o Atlético, talvez tenha sido o maior expoente: defendeu com força que todos parem para ajudar e, num treino aberto, com cobrança de ingressos, tocou o hino rio-grandense, juntou o valor da bilheteria arrecadado por 40 mil torcedores e vai mandar tudo para ajudar na reconstrução.
Afora isso, são dignas de aplauso iniciativas pontuais de Palmeiras, que mandou um avião lotado de mantimentos e do Fortaleza, do Marcelo Boeck, muito engajado no levantamento de donativos e ajuda. Isso sem falar nos jogadores de Grêmio e Inter, que literalmente foram para dentro das águas salvar pessoas, colocá-las em segurança e dar-lhes o que comer e o que vestir.
O futebol, a coisa menos importante dentre as mais importantes, não faltou à sociedade. E está ajudando. Parou ou não parou. Mas nunca esteve indiferente.
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