Geral

Quando o diagnóstico não paralisa a vida de quem a vê com otimismo

5 de abril de 2024
  • Por
    Jaqueline Rieck
  • Fonte
    Jornal Arauto
  • Foto: Jaqueline Rieck/Jornal Arauto
    compartilhe essa matéria

    Não é fácil para ninguém receber o diagnóstico de Parkinson. Para Cristiane Kessler, 53 anos, não foi diferente: o anúncio caiu como uma bomba.

    Não é fácil para ninguém receber o diagnóstico de Parkinson. Para Cristiane Kessler, 53 anos, não foi diferente: o anúncio caiu como uma bomba. Chegou em 2018, quando ela tinha 45 e estava no auge de sua atividade profissional – havia realizado há pouco o desejo antigo de abrir um outlet, o Feirão da Moda. A rotina da comerciante que atuava em todas as frentes em uma das lojas mais tradicionais de Vera Cruz era intensa. E foi desempenhando suas tarefas que passou a perceber os primeiros sinais do Parkinson, ainda sem saber que era ele. “Comecei a travar as mãos, sentia ao escrever na loja. Não conseguia entender minha própria letra”, lembra.

    LEIA TAMBÉM: A saúde pelo estilo de vida é um dos assuntos do Painel Arauto

    A chegada do diagnóstico foi traumática. Em Santa Cruz do Sul, na primeira consulta, foi orientada a utilizar um medicamento que, segundo o médico, auxiliaria na comprovação da doença. Cristiane travou, ficou com os movimentos do corpo comprometidos e em uma ocasião, utilizou uma cadeira de rodas para conseguir se deslocar. “O triste é que a partir daí, começou um burburinho a respeito da saúde dela e essa é uma parte que nos machucou”, contou o marido, André Kessler. 

    Foram alguns meses experimentando tratamentos até acertarem a medicação, e, paralelo a isso, havia o susto e a aceitação. “Me tratei durante três meses e só piorei. Não conseguia comer, me escovar, tomar banho, nada, eu estava paralisada e dopada. Parecia simplesmente que estava apagada, apenas tomando remédio e dependendo da ajuda de alguém para fazer as coisas mais básicas”, recorda Cristiane.

    O susto se confirmou

    Em Porto Alegre, ao consultar com um neurologista especializado no tratamento do Parkinson, o diagnóstico foi reiterado. Ao observá-la em movimento, a nova afirmativa outra vez lhe tirou o chão.”Foi um baque, um choque, tive vontade de morrer, chorei muito. O médico contou para a minha família e assim que saímos de lá resolvemos fazer um passeio para a Serra, com todos, para ficarmos juntos e processarmos tudo o que estava acontecendo”, contou a comerciante. Ela se fortaleceu e, a partir de então, decidiu voltar para casa disposta a fazer uma vida nova onde a rotina de tarefas estivesse dentro de suas atuais possibilidades. 
    Os olhos não escondem a emoção quando Cristiane é provocada a revelar do que mais ela sente falta naquela vida que vivia antes do diagnostico. É do trabalho. Houve uma pausa para que ela pudesse elaborar e elencar a quantidade de tarefas, desejos e realizações das quais participou, e ainda as que gostaria de concretizar.

    A alternativa foi viver

    A vida mudou, mudaram as condições. O otimismo e a vitalidade de quem conhece a Cris, como é chamada, permaneceram intactos. Foram eles que a motivaram a experimentar outras possibilidades, testar outras versões dela mesma. Algumas coisas permaneceram iguais. “Acordo e vou para o meu cantinho, passo o meu batom, me arrumo, preciso estar bem”, confessa. Outras mudaram. “Comecei a ler, encontrei muita coisa legal, busquei informações, leio sobre tudo, e também passei a pintar. Ao mesmo tempo que gosto de fazer coisas para presentear as amigas e decorar, estimulo meu corpo, o braço principalmente”, frisa. 

    A rotina atual é toda elaborada com atividades que a auxiliam a viver da melhor forma sua condição de saúde. Inclui cuidados físicos, mentais e emocionais. E a mensagem que esta reportagem gostaria de deixar, e certamente a Cristiane também, é de que é possível driblar até mesmo um diagnóstico de uma doença cuja cura ainda não foi descoberta quando existe vontade, otimismo e fé no futuro. Cristiane acredita que logo ali na frente novas alternativas virão e quem sabe, até a cura.

    O acolhimento e a dedicação da família

    Passados oito anos do diagnóstico de Cristiane, o marido e companheiro de vida e de trabalho, André Kessler, pai de Bárbara e Igor, também revela a angústia vivenciada por toda a família até a confirmação do Parkinson, e a expectativa em relação ao tratamento e a vida dali para a frente. “Tínhamos um conhecimento mínimo sobre a doença e passamos a procurar tudo que estivesse ao nosso alcance”, contou.

    O casal, que sempre foi muito participativo em eventos sociais e atividades do comércio, tomou distância destas atividades. “Como o Parkinson da Cris é aquele que paralisa, ela precisa de medicação ao longo de todo o dia. Às vezes acontece de o nível de dopamina elevar um pouco mais do que o esperado e isso provoca movimentos involuntários, que fazem com que ela se sinta desconfortável quando está em público”, confidencia. 

    André salientou o dinamismo e a energia de Cristiane como as características mais marcantes da esposa, e mencionou as mudanças que teve que fazer para conseguir dar continuidade ao trabalho que ela desenvolvia na loja, ainda mais após dois anos da abertura da filial. “Até hoje as pessoas chegam aqui e perguntam por ela. Ela é a cara da loja, é quem dava conta de tudo, fazia tudo que tinha que fazer dentro de uma loja”, pontua e complementa: “ela ainda vem alguns dias. Vem para reencontrar e conversar com as pessoas, e sempre tem um pitaco para dar.

    O acolhimento da família, evidenciado pela própria Cristiane, é a força que a faz levantar todos os dias para viver da melhor forma que conseguir. Este, segundo André, é o lema. Viver a vida da melhor forma que puderem, celebrando cada dia, criando memórias e com o olhar atento as novas possibilidades e oportunidades para tratar a doença. “Nossa maior angústia é tentar prever o futuro. Não sabemos. Então, combinamos viver, aproveitar um dia após o outro. Nossa família está sempre muito junta, e nós somos muito ligados, sei que isso ajuda”, refletiu. 

    Um dos fatores que pode reduzir o efeito da medicação da qual Cristiane faz uso, é o emocional. “Precisa estar com a cabeça bem, sem maiores preocupações, porque tudo isso influencia”, conta.
    Perguntado sobre as dificuldades na convivência,  respondeu: “Tem limitações físicas, neurológicas, psicológicas, mas não chamaria isso de dificuldade. Tudo é uma questão de adaptação. A gente precisou se adaptar a essa nova fase da Cris.