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30 anos após a morte, Ayrton Senna segue uma memória viva na mente dos brasileiros

1 de maio de 2024
  • Por
    Portal Arauto
  • Fonte
    Jornal Arauto
  • Avôs, pais e netos, até aqueles que não o viram correr, tem o piloto como referência | Foto: Norio Koike/Reprodução
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    Era um primeiro de maio como qualquer outro. Um feriado de Dia do Trabalho que infelizmente caía em um final de semana, mais precisamente em um domingo. Domingo a ser mágico, assim como inúmeros outros ao longo de quase uma década. Assistir um jovem de capacete verde e amarelo pilotar em autódromos pelo mundo se tornou a paixão de milhões de brasileiros. Ayrton Senna trouxe alegria, o despertar de um patriotismo adormecido por anos em virtude crises econômicas, governos e políticas fracassadas e uma miséria que flagelava o Brasil. Aquele domingo, no entanto, viria a ser diferente. Ayrton Senna entrou em sua Williams para percorrer aqueles que seriam os últimos quilômetros de sua curta vida. Ao perder o controle do carro na curva Tamburello, no GP de San Marino, na Itália, o piloto chocou-se contra o muro e se despediu ali mesmo, deixando um país e o mundo inteiro de luto.

    Em outra época

    Sentado em uma pequena poltrona na sala de estar, Álvaro Werner, de 73 anos, revive as memórias de dezenas de domingos que acompanhou o piloto brasileiro. Hoje aposentado, o colunista do Jornal Arauto já escrevia para o periódico quando o impresso era chamado de Vera-Cruzense. “Eu acompanho Fórmula 1 há muitos anos, desde a época do Jackie Stewart, nos anos 70. Naquela época era diferente, acompanhava pelas revistas e outros jornais, depois veio o rádio e só anos após surgiu as transmissões de TV”, lembra. “Naquela época havia menos tecnologia, os pilotos precisavam ter mais sensibilidade, escutar a máquina. Havia mais competitividade também. Há uma foto em que reúne o Senna junto a Alain Prost, Nelson Piquet e Nigel Mansell. Nunca teremos tanto talento junto assim novamente”, frisou.

    Inspiração

    “Senna tinha algo a mais”, assim, Werner começa a narrar as razões pelas quais ele vê Ayrton impactar, até mesmo hoje, a vida de tantos brasileiros. “Ele queria vencer. É óbvio que os outros pilotos também queriam. Mas o Senna tinha esse ímpeto, essa motivação. As pessoas não queriam um piloto comum. Queriam algo assim”, explica.

    Werner lembra dos momentos que este espírito prevaleceu. “Tem, por exemplo, a lendária primeira volta de Donnington Park, onde, na chuva, ele larga mal e cai para quinto lugar. Ainda na primeira volta ele ultrapassa todos à frente dele, incluindo o Prost, e lidera a prova até o fim”. Senna viria dar uma volta em todos os pilotos daquela corrida, com exceção do segundo colocado, Damon Hill, tendo ficado ainda um minuto e 23 segundos à frente do britânico.

    Outra conquista memorável foi no Grande Prêmio de São Paulo, em Interlagos. Em 1991, Ayrton Senna estava próximo da primeira vitória em seu país, após anos de tentativas frustadas. Foi quando um problema na caixa de câmbio pareceu repetir o cenário visto das últimas temporadas. “Ele perdeu as marchas do carro, tinha apenas a primeira, a segunda e a sexta e o Patrese vinha logo atrás, diminuindo a diferença. Ele não podia mais trocar as marchas, tinha que fazer um esforço enorme em alta velocidade nas curvas. No fim, deu graças a Deus pela corrida ter terminado. O Senna já estava sem forças, fatigado. Foi a vitória dele mais memorável, na minha opinião. Qualquer outro piloto teria desistido. Mas ele era diferente, ele levou no braço e conseguiu vencer”, recorda Werner.

    1º de maio ainda dói

    “Senna bateu forte”, as palavras de Galvão Bueno, na Rede Globo, ainda ecoam na memória dos brasileiros. A batida repentina, apenas uma dentre tantos outras que ocorrem ao longo da temporada da Fórmula 1, não parecia séria nos primeiros momentos, mas os sinais já premeditavam o pior.
    Ao contrário das demais curvas, a Tamburello não possuía inclinações, projetadas justamente para evitar “escapadas” e acidentes graves após retas de alta velocidade. Mas o restante da pista também era um perigo constante. Rubens Barrichello, o Rubinho, voou sobre o guard rail na sexta-feira, durante os treinos. Ronald Ratzenberger morreu metros após a curva que ceifou a vida de Senna, no sábado, na qualificação. O acidente marcante, no entanto, ocorreu no domingo. “Quando vi a imagem do helicóptero e ele estava imóvel, com a cabeça pendida para o lado e logo depois veio o corte da câmera, percebi que era algo sério. Geralmente os pilotos logo pulam para fora do carro, mas ele estava imóvel. Havia sangue no local, colocaram um pano para impedir o telespectador de ver o que estava acontecendo. Foram muitos fatores que fizeram parecer um caso muito grave”, conta Werner. “Acredito que ali na pista ele já estava morto, mas não anunciaram para não parar a corrida.”, especula.

    A confirmação

    A certeza veio aproximadamente às 13h40min do domingo. Werner estava na sede do Jornal Arauto, onde planejava escrever. “Eu simplesmente não consegui mais. O meu irmão morava no Rio de Janeiro e apenas dizia que não podia acreditar no que estava acontecendo. Não dava para acreditar, não parecia certo. Estávamos em negação”, recorda, em lágrimas, o eterno fã do piloto. “Mas tivemos que aceitar. Hoje ficam as lembranças boas, as vitórias marcantes, as disputas nas pistas. Ele foi um cara exemplar, que sempre buscou o melhor e isso deve servir de exemplo para todo mundo. Não devemos desistir. Nunca.”

    Gerações

    Senna foi, é e será ídolo de gerações, não somente no Brasil, mas em todo o mundo. Inspiração, é referência até hoje para os pilotos de Fórmula 1, até mesmo para aqueles que não o viram correr. O piloto não é o mais vitorioso da história da categoria, não possuiu o maior número de títulos e nem de pole positions. No entanto, tem a idolatria destes recordistas, como o britânico Lewis Hamilton, maior campeão da história da F1 e que vê no brasileiro um ídolo pessoal.

    Senna sempre esteve à frente, nas pistas e no coração. Talvez o 1º de maio de 1994 não tenha sido uma despedida, mas um até logo de alguém que nos deu uma volta.